No Equador, o jornalismo se desenvolve em um clima de crescente insegurança, autocensura e hostilidade, marcado pelo avanço de gangues criminosas e cartéis do narcotráfico, bem como pela multiplicação de agressões, ameaças, atentados e até assassinatos. A essas pressões somam-se ainda novas restrições regulatórias para veículos de comunicação e jornalistas.
Cenário midiático
El Comercio e El Universo, La Hora, Primicias e Últimas Noticias são os principais jornais do país, onde o contexto de insegurança e as dificuldades econômicas afetam seriamente o exercício do jornalismo. Entre 2024 e 2026, o fechamento de veículos locais e a redução do número de correspondentes enfraqueceu a cobertura territorial, sobretudo nas zonas de alto risco. Na Amazônia, as estações de rádio e outros veículos de comunicação operam com recursos muito limitados, o que restringe a cobertura em territórios afetados por conflitos socioambientais e pela criminalidade.
Contexto político
Os três mandatos consecutivos de Rafael Correa (2007-2017) deixaram um legado de tensões com a imprensa e de uso intensivo de instrumentos estatais para pressionar o ecossistema midiático. Depois de uma crise institucional no governo de Guillermo Lasso, as eleições de 2023 – marcadas pelo assassinato brutal do candidato e ex-jornalista Fernando Villavicencio – levaram ao poder Daniel Noboa, reeleito em 2025. O contexto de forte polarização e de crise na segurança condiciona o debate público e a cobertura jornalística, que também é afetada pelos conflitos políticos e por restrições de acesso a informações públicas sensíveis, o que prejudica a transparência e cria entraves ao jornalismo investigativo.
Quadro jurídico
A Lei Orgânica de Comunicação (LOC), aprovada em 2013, tem sido utilizada em litígios com a imprensa, especialmente para abrir processos na justiça ou aplicar multas a jornalistas. Ao longo do mandato de Guillermo Lasso, no entanto, os aspectos mais críticos da LOC foram reformados: a figura do “linchamento midiático” foi extinta, assim como o cargo de superintendente de comunicação. Em 2025, o Executivo apresentou um projeto de lei para o controle de fluxos irregulares de capitais que pode aumentar as exigências e a supervisão estatal sobre organizações sem fins lucrativos, com possíveis repercussões para os veículos de comunicação e coletivos jornalísticos que dependem de ajuda internacional.
Contexto económico
O modelo de negócio dos meios de comunicação tradicionais foi duramente atingido por uma série de fatores políticos e econômicos, agravados pela pandemia de COVID-19. Muitos jornais, como La Hora e o diário público El Telégrafo, deixaram de circular em versão impressa e migraram para o digital. Muitas estações de rádio reduziram a programação jornalística e até o principal jornal diário, El Comércio, demitiu grande parte de sua equipe. O número de sites de notícias vem crescendo, mas seu modelo econômico ainda precisa se consolidar.
Segurança
Os últimos anos foram difíceis para o jornalismo equatoriano, com aumento das agressões, impulsionado pelo avanço do narcotráfico, pela estigmatização e por outras pressões, como o assédio online. As frequentes ameaças de morte contra jornalistas e os ataques a redações são sinais de uma violência e de uma impunidade estruturais que afetam gravemente a profissão e levam alguns jornalistas ao exílio. Em 2025, três jornalistas foram assassinados no exercício de suas funções. Embora exista um Mecanismo de Prevenção e Proteção do Trabalho Jornalístico, sua implementação é insuficiente, e ele carece de recursos financeiros suficientes para intervir com rapidez. Em zonas fronteiriças, como as províncias de Esmeraldas e El Oro, e em portos onde operam cartéis, a autocensura é cada vez mais comum entre os jornalistas locais, criando verdadeiros “buracos negros de informação” em diversas regiões do país.